sábado, 8 de março de 2014

stairway to heaven

Distante do mundo eu me vejo. Muita coisa se passa pela minha cabeça neste momento. Passamos muito tempo de nossas vidas procurando e vasculhando respostas e acabamos esquecendo das perguntas. O tempo passa.
O tempo passa e eu sinto que continuo empacada no mesmo lugar em que parei meses atrás, não ando para frente, só caminho em círculos. Círculos sem fim, talvez nem seja um círculo, seja um quadrado enorme, em que as arestas nunca se encontram. Porém as vezes acredito que seja um círculo. Eles não têm lado, não têm nada, são sem graças. E é o que eu sou no momento.
Quando chego em casa todas às noites depois de um dia extremamente cansativo, deito em minha cama e procuro refletir sobre as coisas, e insistentemente, me vem a seguinte pergunta na cabeça: "Por que o tempo não passa para mim? Dizem que ele cura tudo. Por que comigo é diferente?" Já estamos em março de 2014 e as coisas realmente não funcionam para mim, ou pelo menos não andam do jeito que eu achava que andariam. Cada vez eu estou pior. Essa é a real. Não sou um cigarro em que a cada tragada a fumaça queima toda aquela nicotina e todos aqueles componentes químicos até queimar tudo, até não sobrar nada. Eu queria ser assim. Eu queria ser um cigarro em que em tempos cada tragada refletisse em um pedaço queimado meu, um pedaço que se perde pelas ruas ou até mesmo a fumaça que se desfaz com o vento e... desaparece. Quero desaparecer. Melhor, quero que este sentimento interno desapareça, se esfarele, que seja um batom que saia com uma passada de guardanapo. Que seja fácil assim, que seja simples. Mas, temos que lembrar que o sofrimento não tem prazo de validade. Se tivesse, seria tão mais fácil. Imaginem se alguém chegasse agora falando: "-Olha, tu sofrerás somente por três meses! Acabando, tu conseguirás ser livre!". Não é assim. Não sabemos o fim. E a validade? Ela pode ser eterna. Esse é o meu maior medo. A minha maior prisão interna. Que a ferida cure e cicatrize, mas que a cicatriz continue com todas as marcas visíveis no meu corpo. Eu sou fraca e nesta luta eu perco facilmente e corriqueiramente. A dor é mais forte que a razão.
Me vejo parada no tempo, porém totalmente distante, em um universo paralelo. Estou vivendo, sistematicamente, mas vivo. Tenho minha rotina, que por sinal, não é interessante, faço minhas coisas, bebo nos finais de semana, viajo quando posso e também viajo no tempo com todas as minhas brisas, ainda sonho, experimento novas universos e aventuras. Mas chego em casa e deito na cama e tudo isso para e me lembro que ainda me encontro no ponto inicial do tabuleiro. Isso tudo é um jogo. E o meu peão ainda não saiu do ponto inicial. Quero avançar novas casas, o tempo está correndo. Porém não posso contra ele. Ele é mais rápido que eu e eu, mais fraca e menos sábia. Ele é tão mais rápido que nem alcançá-lo eu posso. Deve ser por isso que ele não passa para mim. Deve ser por isso que as coisas ainda acontecem para mim. É como um trem passando super rápido e eu lá longe tentando correr o máximo que eu posso para pegá-lo. Sem sucesso. E assim eu continuo. Me sento no banco esperando outro trem passar. Desta vez tento ser mais esperta para pegá-lo com antecedência. Mas quem disse que eu consigo? Dizem que a sabedoria é a nossa maior virtude.
O futuro, me instiga, em contrapartida, o passado me atrai. É uma corrente, quiçá uma gangorra em que de vez em quando quero alcançar o futuro e, outrora, voltar ao passado. Sem fim. Quero me libertar. Quero gritar. Quero voltar ao mundo sem pertencer à ninguém. Agora neste caminho sou só eu... sozinha, eu me amando somente e pensando só em mim. Quero restabelecer um contato com o mundo. Caso isso não aconteça, o universo será meu. E o paraíso vai ser meu destino, e assim, do paraíso vai ser as escadas em que eu tentarei subir, como diria Robert Plant, nós que compramos nossas próprias escadas, porém cabe a nós o destino de segui-las e subi-las. Posso estar subindo a errada. Posso ter subido a errada durante este tempo todo. Revertê-lo-ei, quem sabe. Quem sabe o tempo me dê alguma trégua. Ele não pode ser malvado assim por muito tempo. As minhas escadas já estão garantidas. Só resta saber o meu amanhã.

domingo, 17 de novembro de 2013

eu não existo sem você

Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham pra você
Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você

Tom Jobim/Vinícius de Moraes

sábado, 2 de novembro de 2013

sonífero

De mês em mês eu reúno meus amigos em casa para beber uma cerveja e ouvir um Johnny Cash, tenho uns bons vinis e é necessário tirar a poeira deles de vez em quando colocando-os para funcionar. Discutíamos diversos assuntos, de política à putaria. Ou seja, só putaria. Fumo socialmente, de vez em quando dou um trago aqui e outro ali - às vezes gosto de clarear as ideias. - Não namoro faz algum tempo, acho que o problema sou eu... Sou meio sórdido, as mulheres se espantam. Tenho de pagar para conseguir sair com alguma, mas acontece. A minha última mulher não aguentou e se mandou, deixou uns maços daquele cigarro ruim e uma garrafa de Daniel's quase no fim, nem o álcool a fez ficar comigo. Essa é a minha vida e para aprofundar, por conseguinte conto mais sobre minha história.
Sou professor. Ganho pouco. Porém isso não me espanta em uma sociedade medíocre com uma política de merda. Melhor dizendo, sou desvalorizado e sinto falta de me impor e de incentivar, mais além, de me fazer útil na vida das pessoas. Sei falar inglês e alemão, os charutos de chocolate são os meus preferidos. Toco um pouco de piano, só que não sou mestre nas sinfonias. Mas para que? Tudo isso não importa a ninguém. Costumo pegar um papel e uma caneta antes de dormir e rabiscar sobre tudo o que aconteceu no meu dia... E, resultado: um rabisco preto sem pé e nem cabeça. Como se fosse um poço bem fundo, mas bem fundo mesmo em que eu me encontro lá em baixo, sem direção de saída. É estranho, pois todas as folhas deste caderno estão rabiscadas assim já faz algum tempo. O tédio corrói. A rotina então... essa nem se fala. Eu devia ter mudado isso, talvez ter colocado mais cor nestes rabiscos, mas não. A hipocrisia reina no mundo, não vou ser mais um nessa onda estúpida. As injustiças estão demais e o meu medo é que elas só aumentem. Espero que quando esse dia chegar eu já não esteja mais aqui e meus pulmões já tenham sido consumidos por todo charuto fumado.
Meu apartamento anda às moscas, o bolor da parede só aumenta e as goteiras quando chove inundam a sala. Fora os aluguéis atrasados por conta do mísero salário de professor. Esse é o meu espaço, esse é o cenário perfeito para a minha vida solitária.
Moro no quarto andar e sempre que posso caminho até a janela e permaneço em silêncio observando as pessoas andando nas ruas. Umas correm (devem estar atrasadas por algum compromisso importante), outras andam calmamente enquanto outras andam distraídas com aparência de cansadas. Fico imaginando a rotina destas pessoas, certamente é mais interessante que a minha, mas não mais tão extraordinária. Se elas estão fazendo seus corres, é porque precisam destes corres. Enquanto as observo, pego um copo de whiskey e acendo a melhor parte do meu dia: meu charuto. Faço uma pequena alusão destas pessoas tentando e querendo ser algo na vida com o meu fumo. É tão agridoce. A cada tragada sinto o amargo e o doce do chocolate misturando-se juntos na minha boca, é uma ótima sensação. Quantas vezes na vida não fomos agridoce? Sentimos tantas coisas ao mesmo tempo, isso não pode ficar de fora.
Não tenho medo de nada. Vou confessar uma coisa: quando eu sinto medo, tomo meu sonífero. É o melhor remédio. O sono vem e a insegurança passa. Quando eu acordo já é outro dia, outro dia para o mesmo homem de sempre e para o mesmo sonífero de sempre. Ele é o meu melhor amigo e é com ele que todas as minhas frustrações saram. Ele cura tudo de errado em mim, mesmo sabendo que quando eu acordar de novo, será a mesma realidade. Realidade esta que, não transcende. É a mesma sempre. E aqui eu paro a minha história tomando o meu sonífero. Está na hora do sono. Do meu profundo, sono.