quarta-feira, 8 de abril de 2020

tempos difíceis

tempos difíceis 
carregados de monólogos 
arranjados e desarranjados
coloco o meu vestido florido preferido
e caminho em forte calcares
a aberração insólita da natureza morta
perdidamente impalpável e lúgubre 
é a junção da procrastinação com
a alma promíscua 
epifanias 
eu me lanço flamívola ao universo etéreo
eu me acabo em mistérios e me afundo
no íntimo do meu tálamo  
sinto que é a anunciação do meu
prodrômico sistema desajeitado
fixo o meu olhar no espelho 
e enxergo tempos difíceis 
vejo um olhar embargado e esfalfado 
e entendo o meu espírito profundo,
fluido em uma constelação de estrelas
passo a língua em meus lábios ressecados
e sinto a ptialina queimando o ácido
como um experimento Arrhenius
penteio o meu cabelo
termino de me arrumar para o evento 
de encontro às janelas,
observo as harpas e o sonoro profético 
do tênue gosto da liberdade em tempos cruéis
na obscura e mortal forma humana
carrego o tom intrínseco niilista
regurgito estramônio e sinto minha carne em resíduo putrescível como um agonizante instinto em uma irracionalidade primitiva
eu sinto ânsia!
enquanto a natureza exausta se despede de mim sob um forte odor 
que queima o olfato
de sândalos e lírios que aconchegam 
e entorpecem o doce aroma do desconhecido 
calo a voz da mente e ouço: 
“és poeira”
entendo como o último verso
de um poeta imaterializado e dissolvido
em um ideal que nunca aconteceu.

domingo, 1 de março de 2020

subterfúgio




sua boca e sua voz
emitem o som da alma
a frequência harmônica de um
rasgado grave e áspero
mas doce
lembrados em versos curtos
que expelem a sensação frenética 
da energia dos cosmos e dos astros
o calor energético se funde com o seu semblante
e eu observo atentamente
seus detalhes 
mesmo que de longe
minha boca e a minha voz
não emitem o som que eu desejo
mas se incorporam em compasso com
a minha consciência 
a sua sensibilidade nas pontas dos dedos
arrepia a nuca
seu idílico perfume adoece a minha alma
respiro na sintonia do seu olhar penetrante
que adentra e que perfura o meu corpo
com um toque delicado 
corpo rústico e austero entrelaçado no meu
corpo leve e promíscuo 
é o contraponto da arte anguiforme
recarregados em potência energética 
do alinhamento dos chakras
o sussurro poderoso do som compassado
entre melodias do desejo assente e lascivo
te encaro em pensamentos e transformo seus olhares em cápsulas afrodisíacas 
em que todas as noites inebrio em doses de ylang ylang
o vento traz a brisa e com ela a sensação atrevida da intimidade
da qual me encaro em seu reflexo e me reconecto com os deuses
em cada parte do seu corpo eu vejo traços púrpuros 
a sua subjetividade me comove e me desperta
seus poderes de mago estão aguçados dentro da minha condição magnânima 
o clímax se consagra em um misto de glórias e impavidez 
coberto por um líquido suave de orvalho cristalino como os de estrelas luminosas do céu escuro
vejo suas mãos me soltarem aos poucos ainda permanecendo viva a respiração quente e concentrada
o seu corpo caloroso derrete em chamas a pureza
mais parecendo plumas que esquentam o meu calafrio profundo 
fermentando e semeando o polido momento de dissolução 
eu permaneço na eternidade 
confrontando o tempo e o espaço do universo
eu me mantenho viva nas suas chamas perplexas e complexas
formamos o som uníssono de ambiguidade promíscua e furtiva 
e assim a minha mente voa para longe
buscando encontrar a fusão perfeita do meu refúgio secreto
projetado em cosmos como materiais carnais disfarçados em seus pequenos lábios vermelhos que me acamam
que me inflamam
e me trazem o doce aroma do ilusório e do irrealizável. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

vórtex



[prelúdio. ato i]
silêncio
mar de veneno
mãe do sossego
abrigo sereno
de mentes
conturbadas
pôr do sol laranja
sol quente 
suor carregado
entro no mar na beleza
da inconstância 
as ondas me levam para
caminhos longe da minha direção inicial
me projeto na sombra do sol
a minha sombra é diferente do que sou
a beleza do mar é incoerente?
me salga a pele
foi isso que tirou a minha escama?
é como se eu me visse nua em uma 
praia paradisíaca 
o sol entope as minhas veias de ardência 
sinto como se eu tivesse cheia de malícia
mas vazia de eutimia
me pergunto como o mar é intenso e calmo
como pode ser os dois?
é imenso
é subterrâneo 
não conseguimos ver quase nada a olho nu
o que será que vemos?
o que estamos dispostos a ver?
a sentir?
fecho os olhos e enxergo vermelho 
o resto do sol do pôr do sol
em um misto com o meu sangue ocular pulsante
emudece o meu suor 
que se mistura com a água salgada do mar
e retifica o que eu já sei
somos um só
somos um espelho
.é por isso que eu me incomodo tanto.
silêncio
da calmaria à vórtice complexa
é como eu me sinto
é como eu viajo
para longe
para a imensidão que nem existe a olho nu
é tamanha a correria
a gente nem olha mais pro céu a noite
eu já nem sei viver mais sem correr...
.
pingo o colírio incolor
me rasgo inteira
me abro por completo
me canibalizo
passo a língua nas minhas feridas ásperas
sugo o meu próprio sangue
como se fossem gotas sagradas de profecia
sangue quente
sangue de cor escura carregado de desejo carnal
eu já me torno irracional
imersa involuntariamente pelo profano
amalgamada sob um olhar angelical
de pureza branda
eu me vejo na extensão do meu enlace 
físico-emocional 
é nesta noite que cometo um crime 
contra mim mesma
eu me devoro
em palavras de natureza egocêntrica:
eu me consumo.
esse jardim vira um pântano 
eu me animalizo ferozmente 
sendo uma arlequina sedada de soro venenoso
heterodoxa
de intuição aguçada
selvagem em meu trato real
direto do Templo de Uppsala
louvo a melodia das flautas o meu sacrifício 
sou um estudo antropológico 
do ser irreal magnético 
eu ouço cantarem em meus tímpanos 
o som dos deuses e do diávolos
me jogo pra dentro da floresta e lá permaneço
sangro junto com a natureza 
a terra molhada cura o meu aspecto ríspido
eu vejo o fogo
a minha íris parece derreter pela quantidade de cintilância
se mistura com a minha retina
eu estou na calmaria
parece ser agressivo
mas sou um animal pedante e doutoral
que busca ser sempre o ser e o não ser
mas que se contradiz em seu aspecto donzel
e virginal
a estética se pressupõe do fundamento
eu sou a arte mundana
feroz e visceral
eu louvo o noturno e com ele seus pecados 
eu estou no plano astral inconstante
desregulada de frequência 
sob um êxtase de experiência mística
eu transcendo o meu real símbolo
a minha moral é exílio
e eu me entrego ao gozo carnal
em mente concebo meus pensamentos
e peço perdão...
....que Dieu m’en garde
que assim seja,
assim será.