quinta-feira, 24 de abril de 2014

enfim os quarenta

E cheguei aos meus quarenta anos. Dizem que essa é a época menos esperada pelas mulheres, aquela famosa fase do: Cheguei aos meu quarenta, e agora? Schopenhauer já dizia: "Os primeiros quarenta anos de vida nos dão o texto: os trinta seguintes, o comentário". Paro o que eu faço e me olho no espelho, enxergo rugas que antes eram apenas traços finos e quase invisíveis. Pele invejável. Via-me rindo com qualquer piada inepta. Era eu na minha juventude, era eu sendo eu só que vinte anos mais nova. Hoje me olho no espelho e vejo minhas rugas mais aparentes e abrangentes, meu rosto já não é mais o mesmo, tampouco meu jeito. Continuo fumando maços de cigarro, meus pulmões certamente mudaram com o tempo. Nem sequer consigo subir uma ladeira. Ah! A juventude, como ela é nostálgica.
Tenho uma mania de guardar tralhas, objetos obsoletos, roupas que não servem mais, somente para sentir o cheiro e lembrar de momentos que não voltam mais. Minha memória olfativa é ótima, já a mental está sofrendo com o tempo. Sinto-me mais velha do que nunca. Abro a gaveta das tralhas e começo a revirá-la. Encontro aquela carta do meu primeiro namorado da escola. Leio dando risada, o amor era tão deleitante naquela época, experimentei de tantas fragrâncias. Quantos homens já rolaram em minha cama? Nem me pergunte, não tenho nem ideia. Provei dos mais loucos amores, mais loucos homens que possa imaginar. Fiz sexo com amor e sem amor, já fiz até sexo sem vontade e desprezível de prazer. Posso dizer que nesse aspecto aproveitei bem a minha vida. Só não consegui aproveitá-la de uma maneira que me opusesse à certos sentimentos, pois nunca consegui manter uma relação pulcra de amor. Sempre fui aquela menina decidida e de personalidade forte, quase nenhum homem aguentava a pressão que eu tornava a vida deles. Mas não era por mal, aquele era o meu jeito de amar.
Lembro-me de um episódio de um namoradinho meu da graduação que falou com grande convicção: "-Tu consegues ser a mais bela gentil das mulheres, seduzindo e exalando fascínio por onde andas, mas ao mesmo tempo consegues ser a pior das mulheres quando veste a máscara irascível tornando qualquer momento colérico e desgastante para mostrar, unicamente por bel-prazer, teu temperamento forte e difícil de lidar". Quando acabou de falar com um tom doce e melódico essas fortes palavras, aquilo me comoveu de uma certa forma negativamente, que apenas virei de costas para ele e falei: "-Então corre de mim, traste!" Dito e feito. Foi o que aconteceu. O elegante homem e de família granfina virou-se as costas também para mim e nunca mais o vi e nem tive notícias. Meus amores eram feitos de ardor e fogo, mas ao mesmo tempo trágicos. Digamos que, tempestuosos.
Com meu emprego maçante e fastio, vivo uma rotina corrida de dois empregos sem horário para descanso. Ser dona de casa também cansa, é um emprego importuno e sem retorno financeiro, apenas doloroso e desgastante. Sinto minha coluna travada toda vez que resolvo passar a vassoura na minha imensa sala de 25 m². Conto o tempo apreensiva de quando vou poder me aposentar. Hoje me vejo deitada na cama, porém bem mais parada do que antigamente, só eu deito nela, não tenho o calor de alguém para compartilhar com o meu no frio e não sinto o suor de alguém no calor. Vejo o quanto me arrependo de ter sido tão indelicada e estulta para o amor. Recebi-os tantas vezes, mas deixei-os passar com tanta facilidade, como uma areia que se esfarela no meio de seus dedos e desaparece com facilidade. O que dizer dos geniosos? O que dizer de mim mesma se não a colheita de minha sofreguidão? Teriam padecimento de mim? Hoje os meus casos selvagens viraram amenos, repousados. É como um animal feroz em seu maior momento de plenitude da vida. É insólito. Vejo-me em meu gato, a sua palidez conforme seus movimentos suspeitos e obscuros. Sempre pensando em cada passo e calculando cada metro quadrado. Sou assim, calculei tanto e veja onde eu parei. Em uma casa pequena com uma vida remota e singular. Os plurais já não cabem mais em mim. Descobri que o amor não cabe e nunca coube em mim. Sou como uma forasteira no assunto, de tantas e inúmeras experiências, não aprendi nada. E aqui vivo desamparada sem o direito de desfrutar de prazeres que antes eu não os suplicaria tanto por tê-los fáceis em minhas mãos, mas hoje, na situação em que estou, pensaria duas vezes em mandá-los para longe. Suplicar-lo-eis. Quem sabe não os encontro no resto dos meus trinta seguintes anos, trazendo o desfecho do comentário do texto de minha vida que tanto procurei.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

o ponto da melancolia

Choro. Sorrio. Choro de novo. Te vejo por aí. Choro de novo. Me encanto. Me desencanto. Te persigo em pensamento. Não descanso. Canso. Te imagino. Te odeio. Mas te amo. Corro atrás. Volto ao mesmo lugar de sempre. Te encontro. Te beijo. Te agarro e te amasso. Choro. Limpo as lágrimas. Te beijo de novo. Choro. Os compromissos marcam a hora de ir embora. Me apresso. Te puxo. Te abraço. Te agarro forte. Te solto. Te beijo com ternura. Te beijo com raiva. Choro. Olho pro relógio. Hora de ir embora. Te vejo mais longe. Corro mais perto. Te abraço. Te sinto. Te prendo. Dada a partida pra correria dos compromissos. Me desaproximo. Choro mais. Te vejo cada vez mais longe. E eu cada vez mais perto da melancolia. Fecham as portas. Te vejo partir. Choro. Me pergunto: te verei de novo? Meus pés não se movem, querem ficar parados ali. Luto contra o coração. A razão é a minha sabedoria. Me pergunto de novo: vou vê-lo mais uma vez? Não. Nunca mais. Para sempre. Choro.

sábado, 8 de março de 2014

stairway to heaven

Distante do mundo eu me vejo. Muita coisa se passa pela minha cabeça neste momento. Passamos muito tempo de nossas vidas procurando e vasculhando respostas e acabamos esquecendo das perguntas. O tempo passa.
O tempo passa e eu sinto que continuo empacada no mesmo lugar em que parei meses atrás, não ando para frente, só caminho em círculos. Círculos sem fim, talvez nem seja um círculo, seja um quadrado enorme, em que as arestas nunca se encontram. Porém as vezes acredito que seja um círculo. Eles não têm lado, não têm nada, são sem graças. E é o que eu sou no momento.
Quando chego em casa todas às noites depois de um dia extremamente cansativo, deito em minha cama e procuro refletir sobre as coisas, e insistentemente, me vem a seguinte pergunta na cabeça: "Por que o tempo não passa para mim? Dizem que ele cura tudo. Por que comigo é diferente?" Já estamos em março de 2014 e as coisas realmente não funcionam para mim, ou pelo menos não andam do jeito que eu achava que andariam. Cada vez eu estou pior. Essa é a real. Não sou um cigarro em que a cada tragada a fumaça queima toda aquela nicotina e todos aqueles componentes químicos até queimar tudo, até não sobrar nada. Eu queria ser assim. Eu queria ser um cigarro em que em tempos cada tragada refletisse em um pedaço queimado meu, um pedaço que se perde pelas ruas ou até mesmo a fumaça que se desfaz com o vento e... desaparece. Quero desaparecer. Melhor, quero que este sentimento interno desapareça, se esfarele, que seja um batom que saia com uma passada de guardanapo. Que seja fácil assim, que seja simples. Mas, temos que lembrar que o sofrimento não tem prazo de validade. Se tivesse, seria tão mais fácil. Imaginem se alguém chegasse agora falando: "-Olha, tu sofrerás somente por três meses! Acabando, tu conseguirás ser livre!". Não é assim. Não sabemos o fim. E a validade? Ela pode ser eterna. Esse é o meu maior medo. A minha maior prisão interna. Que a ferida cure e cicatrize, mas que a cicatriz continue com todas as marcas visíveis no meu corpo. Eu sou fraca e nesta luta eu perco facilmente e corriqueiramente. A dor é mais forte que a razão.
Me vejo parada no tempo, porém totalmente distante, em um universo paralelo. Estou vivendo, sistematicamente, mas vivo. Tenho minha rotina, que por sinal, não é interessante, faço minhas coisas, bebo nos finais de semana, viajo quando posso e também viajo no tempo com todas as minhas brisas, ainda sonho, experimento novas universos e aventuras. Mas chego em casa e deito na cama e tudo isso para e me lembro que ainda me encontro no ponto inicial do tabuleiro. Isso tudo é um jogo. E o meu peão ainda não saiu do ponto inicial. Quero avançar novas casas, o tempo está correndo. Porém não posso contra ele. Ele é mais rápido que eu e eu, mais fraca e menos sábia. Ele é tão mais rápido que nem alcançá-lo eu posso. Deve ser por isso que ele não passa para mim. Deve ser por isso que as coisas ainda acontecem para mim. É como um trem passando super rápido e eu lá longe tentando correr o máximo que eu posso para pegá-lo. Sem sucesso. E assim eu continuo. Me sento no banco esperando outro trem passar. Desta vez tento ser mais esperta para pegá-lo com antecedência. Mas quem disse que eu consigo? Dizem que a sabedoria é a nossa maior virtude.
O futuro, me instiga, em contrapartida, o passado me atrai. É uma corrente, quiçá uma gangorra em que de vez em quando quero alcançar o futuro e, outrora, voltar ao passado. Sem fim. Quero me libertar. Quero gritar. Quero voltar ao mundo sem pertencer à ninguém. Agora neste caminho sou só eu... sozinha, eu me amando somente e pensando só em mim. Quero restabelecer um contato com o mundo. Caso isso não aconteça, o universo será meu. E o paraíso vai ser meu destino, e assim, do paraíso vai ser as escadas em que eu tentarei subir, como diria Robert Plant, nós que compramos nossas próprias escadas, porém cabe a nós o destino de segui-las e subi-las. Posso estar subindo a errada. Posso ter subido a errada durante este tempo todo. Revertê-lo-ei, quem sabe. Quem sabe o tempo me dê alguma trégua. Ele não pode ser malvado assim por muito tempo. As minhas escadas já estão garantidas. Só resta saber o meu amanhã.